12/10/2008

Kaśmir Śaivism


O Shivaísmo da Caxemira (Kaśmir Śaivism) é uma escola do Shivaísmo caracterizada como: idealismo monístico (idealismo absoluto, monismo teístico, idealismo realista, fisicalismo transcendental ou monismo concreto). Estes descritores dão significado ao ponto de vista que Cit (consciência) é uma realidade única; que a matéria não está separada de consciência, mas sim idêntica a ela; que não existe um abismo entre Deus e o mundo; o mundo não é uma ilusão (como no Advaita Vedanta), ou melhor, ilusão é a imediata percepção da dualidade. O Shivaísmo da Caxemira (Kaśmir Śaivism) surgiu durante o oitavo ou nono século DC, na Caxemira, e sofreu avanços significativos, filosóficos e teológicos, até o final Século XII DC promovendo uma supreendente síntese dos sistemas filosóficos Hindus, Nyaya, Sankhya e Vedanta, permeados pelo Patanjala Yoga. O Śivaísmo da Caxemira se associa aos Tantras hindus, e ambos têm como símbolo principal o Shri Yantra.

Origem mítica do Shivaísmo da Caxemira
Assim como a filosofia do Shivaísmo da Caxemira está profundamente enraizada nos Tantras, sua linhagem de transmissão começa com o próprio Śiva. Segundo a tradição, como o conhecimento dos Tantras foi perdido na Kali Yuga, Śiva assumiu a forma de Śrikanthanath no Mount Kailaśa, onde iniciou o Rishi Durvasa em todas as formas do conhecimento Tantrika, incluindo abheda (sem diferenciação), bhedabheda (com e sem diferenciação), e bheda (diferenciado), como descrito nos Bhairava Tantras, Rudra Tantras, e Śiva Tantras, respectivamente. O Rishi Durvasa meditou intensamente na esperança de encontrar um discípulo preparado para a iniciação, mas não teve êxito. Em vez disso, ele criou três filhos "gerados mentalmente", e iniciou o primeiro filho, Tryambaka na filosofia monística abheda do Bhairava Tantra; esta é a origem mítica do Kaśmir Śaivism.

Conceitos fundamentais do Shivaísmo da Caxemira
Anuttara (o Supremo) é o principal princípio do Śivaismo da Caxemira, é a realidade fundamental subjacente ao universo com um todo. As múltiplas interpretações sobre Anuttara são: "supremo", "além de tudo" e "realidade intransponível". No alfabeto sânscrito anuttara está associado à letra inicial - "A" (em devanagari "अ").
Como princípio fundamental, anuttara é identificado com Śiva e Śakti (estabelecendo a identidade Śiva-Śakti); com a suprema consciência (cit); com a luz da consciência (prakāśa); o Eu supremo (aham) e com a vibração primordial (spanda). O praticante que compreende Anuttara não necessita de uma prática gradual, pode instaneamente atingir a realização e a perfeita liberdade (svātantrya). Anuttara é diferente da noção de transcendência, ainda que esteja acima de tudo, não implica uma separação do universo.

Aham, o Coração de Śiva: Ver artigo principal: Aham (Kashmir Shaivism)
Aham é a noção da realidade suprema como 'coração'. Ele é considerado um espaço não-dual no interior de Śiva, o suporte para toda a manifestação, o supremo mantra e, é idêntico à Śakti.

Kula, o grupo espiritual: Ver artigo principal: Kaula
Kaula é um conceito complexo, literalmente traduzido como família ou grupo. Corresponde às estruturas formadas por inúmeras partes existentes em vários níveis, interligadas e complementares, chamadas de famílias em razão de terem um vínculo unificador comum, a Suprema Consciência (Śiva).
As práticas relacionadas com Kaula são muito obscuras e místicas e estão além de qualquer fundamentação filosófica, mas centradas na experiência imediata. Essencialmente, Kaula é uma forma de "corpo alquímico" onde os aspectos inferiores da nossa identidade (ego) são dissolvidos nos superiores, e todos eles formam um grupo unificado (kula) que encontra Śiva como derradeiro suporte.

Os Śiva Sutras
O primeiro grande iniciado da história do Shivaísmo da Caxemira foi Vasugupta (875-925 DC) que apresentou os princípios e as principais doutrinas deste sistema através dos Shiva Sutras, o texto fundamental do Śivaísmo. Tradicionalmente estes sutras são considerados uma revelação de Shiva. De acordo com o mito, num sonho, Shiva ordena a Vasugupta ir à montanha Mahādeva na região de Caxemira. Nesta montanha, Vasugupta encontra os versos inscritos em uma rocha, os Shiva Sutras, que contém os fundamentos do monismo Shivaísta. A obra é uma coleção de aforismos (sutras) que expõem uma metafísica não-dual (advaita). Estes sutras, na classificação Hindu, são conhecidos como agamas, também conhecidos como os Shiva Upanishad Samgraha (sânscrito: śivopaniṣad saṅgraha) ou Shivarahasyagama Samgraha.


Classificação da tradição escrita
O primeiro texto do Shivaísmo da Caxemira foi escritos no início do século IX DC. Como sistema tântrico monista, é também conhecido como Shivaísmo Trika (Trika Shaivism), que extrai ensinamentos dos shrutis, tais como o monístico Bhairava Tantra, o Shiva Sutras de Vasugupta, e também de uma única versão do Bhagavad Gita, que tem um comentário de Abhinavagupta, conhecido como o Gitartha Samgraha. Muitos ensinamentos, também, foram retirados do Tantraloka de Abhinavagupta, que se destaca entre um vasto grupo de smritis como fontes do Shivaísmo da Caxemira. Em geral, toda tradição escrita do Shivaísmo pode ser dividida em três vertentes fundamentais: Āgama Śāstra, Spanda Śāstra e Pratyabhijñā Śāstra.

1. Os Āgama Śāstra são textos originados da revelação direta por Siva. Estes textos foram, inicialmente, transmitidos oralmente de mestre a discípulo, e incluem obras essenciais como o Mālinīvijaya Tantra, o Svacchanda Tantra, o Vijñānabhairava Tantra, o Netra Tantra, o Mṛgendra Tantra, o Rudrayāmala Tantra, os Śivasūtras e outros. Existem também inúmeros comentários sobre estas obras, tendo o Śivasūtra a maior parte deles.
2. Spanda Śāstra: o principal trabalho é o Spanda Kārikā de Vasugupta, com muitos comentários. Além dele, dois são de grande importância: o Spanda Sandoha (este comentário aborda apenas os primeiros versos do Spanda Kārikā), e o Spanda Nirṇaya (que é um comentário completo do texto).
3. Pratyabhijñā Śāstra: textos com conteúdos de natureza metafísica. Devido ao seu nível intelectual e espiritual extremamente elevado é a parte do Shaivismo menos acessível para os não iniciados. No entanto, este conjunto de textos refere-se a mais simples e mais direta modalidade de realização espiritual, Pratyabhijñā - reconhecimento espontâneo da natureza divina oculta em cada ser humano (atman). As obras mais importantes desta categoria são: Īśvara Pratyabhijñā, o principal trabalho de Utpaladeva, e Pratyabhijñā Vimarśinī, um comentário ao Īśvara Pratyabhijñā. Īśvara Pratyabhijñā significa, na realidade, o reconhecimento direto da Consciência Transcendental (Īśvara ou Parama Shiva) como idêntico ao nosso 'Coração'. Somānanda, mestre de Utpaladeva, escreveu o Śiva Dṛṣṭi (A Visão de Siva), um poema devocional escrito com múltiplos níveis de significados.

Importantes autores do Shivaísmo da Caxemira
Vasugupta: Fundador do Shivaísmo da Caxemira, é autor dos Śivasūtras, texto fundamental desta escola. Vasugupta, também, escreveu os Spanda Karikas, comentários sobre os Shiva Sutras.
Abhinavagupta: Todos os quatro ramos da tradição do Shivaísmo da Caxemira foram sintetizados pelo grande filósofo Abhinavagupta (950-1020 DC). Entre seus trabalhos, o mais importantes é o Tantraloka ("A Divina Luz do Tantra"), um trabalho em versos que é uma síntese de toda a majestosa tradição do Shivaísmo monista. Abhinavagupta obteve sucesso ao dissipar todas as aparentes diferenças e as disparidades que existiam entre os diferentes ramos e escolas do Shivaísmo da Caxemira. Assim, ele oferece uma visão unitária, coerente e completa do seu sistema. Devido à grande extensão do Tantraloka (5859 versos), Abhinavagupta apresentou uma versão mais curta em prosa, chamada Tantrasara ( "A essência do Tantra").
Jayaratha, outro importante autor da tradição Shivaísta da Caxemira é Jayaratha (1150-1200 DC), que acrescentou um comentário ao Tantraloka, tarefa que consumiu grande parte de sua longa vida. Ele acrescentou mais conteúdos, várias citações e esclarecimentos, que permitiram elucidar algumas passagens obscuras do Tantraloka.

As quatro escolas do Shivaísmo da Caxemira
Krama: o termo "krama" significa "progressão", "gradação" ou "sucessão", que significa respectivamente, "progressão espiritual" ou "refinamento progressivo dos processos mentais” (vikalpa), os sucessivos desdobramentos que levam a um nível final - a Suprema Consciência (cit). Embora a escola Krama seja parte integrante do Shivaísmo da Caxemira, é também histórica e filosoficamente, um sistema independente. Krama é relevante como uma síntese do Tantra e das tradições Śākta baseadas no Shivaísmo monístico.
Como sistema de teor místico e com orientação Tântrica (e Śakti), Krama é semelhante em alguns aspectos ao Spanda, ambos centrados na atividade de Śakti. É, também, similar ao Kula na abordagem Tântrica. Dentro da família do Shivaísmo da Caxemira, a escola Pratyabhijñā é a forma mais oposta ao Krama. A característica mais relevante do Krama é a sua disciplina dualística-monistíca (bhedābhedopāya) nas fases iniciais da realização espiritual. Embora o Shivaísmo da Caxemira seja um monismo idealístico, ainda há lugar para aspectos dualísticos como estágios preliminares no caminho espiritual. Por isso, diz-se que na prática, Krama emprega métodos dualísticos /não-dualísticos, embora, seja essencialmente não-dualístico em sua filosofia subjacente. Krama  tem um positivo viés epistemico, visando a formação de uma síntese entre prazer (bhoga) e liberação (mokṣa).

Kaula: Ver artigo principal: Kaula
Outro importante ramo do Shivaísmo da Caxemira, é a escola Kula (ou Kaula), em sânscrito, significa "família" ou "totalidade". É uma escola tãntrica (da mão esquerda) por excelência, onde Śakti desempenha o papel primordial. Os ensinamentos Kaula constituem o esqueleto do Tantrāloka e do Tantrasāra. Entre seus mestres espirituais, Abhinavagupta menciona Śambhunatha, com mais freqüência, e o considera seu mais importante guru da Escola Kaula. (Abhinavagupta teve também outros mestres, como por exemplo, Laksmanagupta).

Spanda: o sistema Spanda, introduzido por Vasugupta (800 DC), é normalmente descrito como "vibração / movimento da consciência". Abhinavagupta utiliza a expressão "uma espécie de movimento" fazendo a distinção com o movimento físico, é a vibração original ou som interior do Divino, uma pulsação. A essência desta vibração é a extática consciência auto-recorrente. O pressuposto central deste sistema é "tudo é Spanda", tanto a realidade exterior objetiva quanto o mundo subjetivo. Nada existe sem movimento, embora o movimento último ocorra além do espaço ou do tempo no interior da Suprema Consciência (cit). Portanto, trata-se de um ciclo de internalização e de externalização da própria consciência, relativas a mais elevada categoria da criação (Śiva-Śakti Tattva). Para descrever o conceito Spanda, uma série de conceitos equivalentes são enumerados, tais como: consciência auto recorrente - vimarśa; livre expressão da Suprema Consciência (cit) - svātantrya; suprema energia criativa - visarga; coração do divino - hṛdaya e oceano de luz e de consciência - cidānanda. Os textos mais importantes deste sistema são os Śiva Sutras, o Spanda Karika e o Vijñāna Bhairava Tantra.


Pratyabhijña: a escola Pratyabhijña, que em sânscrito, significa literalmente “reconhecimento espontâneo" é uma escola surpreendente, uma vez que não há quaisquer upāyas (meios), ou seja, não há nada a praticar, a única coisa a fazer é reconhecer quem você é. Tais "meios" podem realmente ser chamados de anupāya, sânscrito "sem meios". Embora esta escola tenha prosperado até o início da Kali Yuga, acabou por se perder devido à falta de compreensão dos seus meios e objetivos. Mas, o sistema foi recuperado por Somananda (Séc. X DC), um mestre do Shivaísmo da Caxemira. Kaśmir Śaivism: Wikipedia

Links
Saivism.net
Trika: Wikipedia
Kashmir Shaivism Fellowship
Trika Shaivism
The 36 tattvas

Nenhum comentário: