01/06/2018

Os Yoga Sūtras de Patañjali

Homenagem a Patañjali 



Oṁ: vande gurūṇāṁ caraṇāravinde - Eu me curvo aos pés de lótus do grande guru
sandarśita svātma sukhāva bodhe - que revela nosso verdadeiro “Self” e desperta a felicidade.
niḥ śreyase jāṅgalikāyamāne - Como um xamã na selva, nos traz o mais completo bem-estar. 
saṁsāra hālāhala mohaśāntyai - Ele pode curar o mais terrível veneno, o saṁsāra (roda da vida).

ābāhu puruṣākāraṁ - Com forma humana na parte superior do corpo 
śaṅkhacakrāsi dhāriṇam - carrega a concha (som original), o disco (eternidade)
sahasra śiraśaṁ śvetaṁ - e a espada (discernimento) 
praṇamāmi patañjalim - Tendo mil cabeças brilhantes, curvo-me a Patañjali
        O Yoga Sutras de Patañjali é o texto fundamental do Yoga, uma das seis escolas ortodoxas da filosofia indiana. Embora extremamente conciso exerceu enorme influência na filosofia Hindu e na prática do Yoga. É, ainda hoje, tão relevante como quando foi composto. O Yoga Sutras é a ciência da concentração mental (meditação). Quando Patañjali editou o Yoga Sutras, não foi criado um novo sistema, mas sim, antigas concepções e práticas é que foram formalizadas em uma estrutura lógica perfeita. De acordo com P. A. Maas, a composição de Patañjali era intitulada Pātañjalayogaśāstra ("O Tratado sobre Yoga de acordo com Patañjali") e consistia nos Sūtras e nos Bhāṣya (comentário que a partir do séc XII foi atribuído a Vyasa). Acredita-se que o Yoga Sutras foi elaborado no século II DC, ou entre 300 e 500 DC. Entretanto, evidências arqueológicas sugerem que os métodos descritos no Yoga Sutras eram praticados por volta de 3000 AC. nas civilizações de Mohehjo Daro e Harappa. E, a tradição oral admite maior antiguidade, possivelmente, na civilização de Mehrgarh, 7000 AC.

        O termo yoga, refere-se a um estado de consciência onde o fluxo psico mental - cadeia de pensamentos e sentimentos [Citta-vritti] é atenuado ou suprimido [nirodha] levando à união entre (consciência empírica) e (consciência transcendental). E, sutras (fio, corrente) refere-se ao encadeamento dos aforismos. O título "Yoga Sutras" é, também, traduzido como "Aforismos sobre o Yoga". Patañjali dividiu O Yoga Sutras em quatro capítulos ou livros (pada), contendo ao todo 196 aforismos, com a seguinte estrutura:
Samadhi Pada (51 sutras)
Samadhi refere-se a um estado de percepção direta e confiável (pramāṇa), onde a mente do iogue se identifica com objeto meditado, colapsando as categorias: conhecimento, conhecedor e conhecido. Samadhi é a técnica principal que o yogin deve dominar, por meio da qual mergulha nas profundezas da mente para alcançar o Kaivalya. Patañjali descreve yoga e, em seguida, a natureza e os meios para atingir samādhi. Este capítulo contém o famoso verso: "Yogaś citta-vritti-nirodhaḥ" ("Yoga é a restrição de modificações mentais").
 • sadhana Pada (55 sutras)
Sadhana é a palavra sânscrita para "prática" ou "disciplina".
Aqui o autor descreve duas formas de Yoga: Kriya Yoga é a prática de três dos Niyamas: tapas, svādhyaya e iśvara praṇidhana - austeridade, auto estudo e devoção a deus; Ashtanga Yoga (yoga óctuplo ou, as oito competências que devem ser adquiridas pela prática do Yoga).
• Vibhuti Pada (56 sutras)
Vibhuti é a palavra sânscrita para "siddhi - poder" ou "manifestação fenomenológica". 'Os poderes supernaturais são adquiridos pela prática do yoga. A prática simultânea combinada de Dhāraṇā, Dhyana e Samādhi (Antaranga) é conhecida como Samyama e é considerada uma ferramenta para alcançar várias perfeições, ou Siddhis. O texto adverte (III.37) que esses poderes podem se tornar um obstáculo para o iogue que busca a libertação.
• Kaivalya Pada (34 sutras)
Kaivalya significa literalmente "isolamento", mas como utilizado nos Sutras refere-se à emancipação ou liberação (moksha). O Kaivalya Pada descreve o processo de libertação e a realidade do ego transcendental.
        As oito etapas do Ashtanga Yoga ou Raja Yoga são:
• Yama - Código de conduta (autocontrole): Ahiṃsā (अहिंसा) pacifismo, tolerância, não-violência); Satya (सत्य) veracidade; Asteya (अस्तेय) honestidade; Brahmacārya (ब्रह्मचर्य) guiar-se por brahma, castidade; Aparigraha (अपरिग्रहः): desapego. isentar-se de preconceitos, superstições e ambições (não possessividade).
Niyama - Disciplina e Devoção: Śauca (शौच) asseio, higiene física e mental; Santoṣa (सन्तोष) serenidade, impassibilidade; Tapas (तपस) disciplina física e mental, austeridade (ascese); Svādhyāya (स्वाध्याय):introspecção, busca do autoconhecimento incluindo o estudo das escrituras e dos darsanas que levam à compreensão do verdadeiro Self; Īśvarapraṇidhāna (ईश्वरप्रणिधान): devoção, auto-entrega a Ishvara (ou a outra forma da Suprema Consciência).
Āsana - integração da mente e do corpo através da atividade física.
Pranayama - regulação da respiração levando ao controle mental.
Pratyahara - isolamento mental, desconexão dos órgãos dos sentidos da percepção sensorial.
Dharana - concentração, uni-direcionamento da mente.
Dhyana - meditação (ininterrupta concentração mental centrada em um único objeto).
Samadhi - absorção, concentração absoluta.
        Epistemologia
        A teoria do conhecimento do sistema filosófico do Yoga de Patañjali baseia-se em três dos seis Pramanas do Sāmkhya como meios de obter conhecimento confiável. Estes incluem Pratyakṣa ou Dṛṣṭam (percepção direta dos sentidos), Anumāṇa (inferência), e Sabda ou Āptavacana (testemunho verbal ou de fontes confiáveis - shāstras) como meios válidos na obtenção do conhecimento.
Ao contrário de algumas outras escolas do hinduísmo, como o Advaita Vedanta, o Yoga não adotou os seguintes três Pramanas: Upamāṇa (comparação e analogia), Arthāpatti (postulação, derivando das circunstâncias) ou Anupalabdi (não-percepção, prova cognitiva negativa).
Metafísica
        A metafísica de Patañjali é construída sobre a mesma base dualista da escola Samkhya. O universo é conceituado a partir de duas realidades no Samkhya-Yoga: Puruṣa (consciência) e Prakriti (substrato material). O Yoga considera a consciência e a matéria, o self/alma e o corpo como duas realidades distintas. Jiva (um ser vivo) é visto como um estado no qual o puruṣa está ligado à prakrti de alguma forma, em várias combinações dos guṇas. Durante o estado de desequilíbrio ou ignorância, um ou mais dos guṇas (forças eficientes) oprime os outros, criando uma forma de escravidão. O fim dessa escravidão é chamado de liberação, ou Moksha, tanto pelo yoga quanto pela escola Samkhya .
          "A primeira e mais sutil evolução de prakṛti, de acordo com Sāṅkhya, é, em ordem: buddhi, inteligência; ahaṅkāra, ego; e manas, mente. Essas camadas, que são agrupadas com nome de "corpo interno", constituem a vida interior de um indivíduo, e puruṣa (Self, alma) é ocultado por essas camadas psíquicas antes de receber um corpo físico denso equipado com sentidos. O termo citta (de cit, pensar, considerar, fixar a mente) é usado neste sūtra e em todo o texto de Patañjali e dos comentaristas para se referir a todas essas três funções cognitivas combinadas (o Yoga difere um pouco do Sāṅkhya ao conceber essas três como funções interagentes da unidade citta (mente), e não como três camadas metafísicas distintas), mas o ponto principal, conforme já enfatizado, Buddhi, (de budh, despertar, estar ciente) inteligência, é o aspecto de citta que produz, entre outras coisas, as funções do pensamento ligadas ao julgamento, discriminação, conhecimento, averiguação e vontade. É o aspecto mais importante de citta, pois é da sua função de discriminação que a libertação é alcançada. Além disso, é buddhi que se molda nas formas dos dados afunilados por manas, abaixo, e apresenta essas imagens à alma puruṣa, à qual está imediatamente adjacente. Buddhi é, portanto, a ligação entre o puruṣa como consciência pura, e os objetos, sejam físicos ou psíquicos, dos quais puruṣa pode ficar ciente." E. F. Bryant.
        Patañjali adota a teoria dos Guṇas do Samkhya. Esta teoria afirma que os três gunas (forças eficientes fundamentais) estão presentes em diferentes proporções em todos os seres, estes três são sattva guna (equilíbrio, luminosidade), rajas guna (atividade) e tamas guna (desequilíbrio, escuridão). A natureza fundamental e as disposições psicológicas dos seres são uma conseqüência da proporção relativa dessas três gunas. Quando sattva guna predomina em um indivíduo, as qualidades de lucidez, sabedoria, construtividade, harmonia e paz se manifestam; quando rajas é predominante, apego, desejo, atividade impulsionada pela paixão e inquietação se manifestam; e quando tamas predomina em um indivíduo, a ignorância, a ilusão, o comportamento destrutivo, a letargia e o sofrimento se manifestam. A teoria dos guṇas fundamenta a filosofia da mente na escola do yoga.
     Soteriologia (Doutrina da Salvação)
        A escola Samkhya sugere que jnana (conhecimento) é um meio suficiente para a liberação (moksha), entretanto, Patañjali sugere que técnicas/práticas sistemáticas (experimentação pessoal) combinadas com a teoria do Samkhya é que são, realmente, o caminho para moksha. Patañjali sustenta que a ignorância é a causa do sofrimento e do saṁsāra (roda da vida, ciclo das encarnações). A liberação, como em muitas outras escolas, é a remoção da ignorância, que é alcançada através do conhecimento discriminativo, e da autoconsciência. O Yoga Sutras é o tratado que ensina como realizar isso. No Samādhi o Yogin toma consciência do Purusa, o verdadeiro Eu. Além disso, afirma que essa consciência é eterna e, uma vez alcançada, não pode ser perdida; isso é moksha, o objetivo soteriológico do hinduísmo.
        Deus
        Patañjali difere da escola Samkhya não-teísta (ou ateísta) ao incorporar o conceito de "divindade pessoal, embora essencialmente inativa", ou "deus pessoal" (Īśvara). Estudiosos hindus como Adi Sankara, assim como muitos estudiosos acadêmicos modernos descrevem a escola de Yoga como "escola Samkhya teísta". O Yoga Sutras de Patañjali usa o termo Īśvara em 11 versos: de I.23 a I.29, II.1, II.2, II.32 e II.45. Desde sua publicação, estudiosos hindus debateram e comentaram sobre quem ou o que é Isvara? Estes comentários variam ao definir Īśvara como "deus pessoal" ou "eu especial" ou "qualquer coisa que tenha significado espiritual para o indivíduo". Whicher afirma que enquanto os versos concisos de Patañjali podem ser interpretados tanto como teístas quanto não-teístas, o conceito de Īśvara na filosofia do Yoga funciona como um "catalisador transformador ou guia para ajudar o yogin no caminho da emancipação espiritual".
Yoga bhashya
        O Yoga bhashya é um comentário sobre os Yoga Sutras de Patañjali que tradicionalmente tem sido atribuído ao lendário sábio védico Vyasa, que se diz ter composto o Mahabharata. Este comentário é indispensável para a compreensão dos concisos sutras do Yoga. Alguns estudiosos vêem Vyasa como um comentador do século IV ou V DC (em oposição à antiga figura mítica). Outros estudiosos sustentam que ambos os textos, os sutras e o comentário foram escritos pela mesma pessoa. De acordo com Philipp A. Maas, baseado em um estudo dos manuscritos originais, a composição de Patañjali foi intitulada Pātañjalayogaśāstra ("O Tratado sobre Yoga de acordo com Patañjali") e consistia em Sūtras e Bhāṣya. Isso significa que o Bhāṣya era, de fato, o próprio trabalho de Patañjali. A prática de escrever um conjunto de aforismos com a própria explicação do autor era bem conhecida na época de Patañjali, como por exemplo em Abhidharmakośabhāṣya de Vasubandhu.(que, aliás, Patañjali cita). Essas descobertas mudam a compreensão histórica da tradição do yoga, uma vez que elas nos permitem tomar o Bhāṣya como a própria explicação de Patañjali sobre o significado de seus sutis e enigmáticos sutras.
        O Yogabhashya afirma que "yoga" nos Yoga Sutras tem o significado de "samadhi". Outro comentário (o Vivarana ) por um certo Shankara, confirma a interpretação do yogah samadhih (YBh. I.1): 'yoga' no sutra de Patañjali tem o significado de 'integração'.
        A interpretação da palavra 'yoga', como "união" é o resultado de influências externas posteriores que incluem o movimento bhakti, o Vedanta e o Shivaísmo da Caxemira. Mas "svarūpapratiṣṭhā" (último sutra do último capítulo do Yoga-Sutra de Patañjali), isto é, "repousando na própria identidade real" é o objetivo final do Yoga, e também pode ser expresso como "união com a própria identidade real". colocando em repouso todos os movimentos da mente ", porque "yoga" também pode significar" unir-se ". Yoga Sutras of Patañjali - Wikipedia

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